Washington, Pequim e a Nova Dinâmica do Comércio Internacional

Qual o momento certo para iniciar uma estratégia de importação

O período pós-segunda guerra mundial marcou o início de uma nova dinâmica geopolítica através de forte influência dos Estados Unidos da América – superpotência que terminava a guerra com aproximadamente metade do Produto Mundial Bruto (PMB). As mudanças foram substanciais, especialmente na esfera do comércio internacional. Em 1947 foi firmado o Acordo de Tarifas e Comércio (GATT), com o nítido objetivo norte-americano de promover a liberalização comercial através da abertura de novos mercados, derrubada de barreiras comerciais (especialmente tributos) e combate ao protecionismo. A nova estrutura comercial garantia acesso ao mercado global às multinacionais norte-americanas, que buscavam consumidores, recursos e mão de obra barata para suas cadeias produtivas. O projeto foi integralmente concretizado somente em 1994, ao final da rodada do Uruguai no âmbito do GATT, ocasião em que foi criada a Organização Mundial do Comércio (OMC). A perpetuação da estrutura comercial conquistada parecia ser a melhor opção para os EUA, de forma que poucos poderiam prever a virada de acontecimentos que o futuro reservava.

Em 20 de janeiro de 2018, Donald Trump foi eleito o 45º presidente dos EUA com uma proposta de mudança radical às regras comerciais arduamente conquistadas no século XX; o objetivo do presidente era ousado: uma guerra comercial com o principal rival comercial norte-americano no globo, a China. A investida orquestrada por Trump é uma reação ao forte crescimento econômico apresentado pelo rival nos últimos anos. O país asiático é detentor da segunda maior economia do planeta, uma posição fundamentalmente conquistada pela supremacia chinesa no comércio internacional. A combinação de potencial econômico com baixo custo de produção dá a China uma vantagem competitiva única no âmbito internacional, fator que faz do país uma escolha estratégica para sedear fábricas de empresas multinacionais. Além disso, Pequim vem adotando a estratégia de desvalorizar o yuan (moeda local) para impulsionar as exportações. Consequentemente, o gigante asiático apresentou um superávit comercial de 323,32 bilhões de dólares frente aos EUA em 2018, de forma que reverter a situação descrita acima é prioridade máxima para política externa norte-americana.

No documento intitulado “Estratégia de Segurança Nacional”, o governo norte-americano estabelece como meta o combate à China “em todos os campos concebíveis”. No instrumento, os EUA acusam “seu maior rival” de “práticas maliciosas”, incluindo violações de propriedade intelectual em centenas de bilhões de dólares, e alertam sobre a ameaça imposta pela expansão chinesa no cenário internacional. Trump cumpriu suas promessas de campanha, e a primeira investida fiscal ocorreu em julho de 2018, quando o país norte-americano tributou em 25% cerca de 50 bilhões de dólares em importações da China, que respondeu tributando, também em 25%, aproximadamente 16 bilhões de dólares em produtos do rival. Pouco depois, em setembro, deu-se a segunda rodada do conflito comercial, onde os EUA tributaram em 10% em torno de 200 bilhões de dólares em importações chinesas. O país asiático retaliou novamente as sanções sofridas, tributando entre 5 e 10% um total de 5.207 produtos de origem norte-americana. Até a presente data, as partes foram incapazes de alcançar um consenso, e a situação pode ficar ainda pior com a promessa dos EUA de aumentar de 10 para 25% as alíquotas impostas na última rodada caso as negociações em andamento sejam infrutíferas.

A conduta das duas maiores economias do mundo viola os parâmetros estruturais da OMC e coloca em xeque a política comercial preservada por anos, criando uma insegurança excepcional para o comércio internacional. O impacto econômico do conflito é global e atinge praticamente todos os setores da economia, por vezes positivamente. No caso do Brasil – principal concorrente americano na produção de commodities agrícolas – as exportações de soja atingiram um montante recorde de aproximadamente 83 milhões de toneladas em 2018. Além disso, pelo menos em curto prazo, a previsão é que o impasse comercial seja benéfico às exportações brasileiras de algodão e minério de ferro, por exemplo. Todavia, em longo prazo, a expectativa é que a insegurança e instabilidade prejudiquem as cotações das commodities – essenciais para economia brasileira, já que representam mais de metade do valor total das exportações nacionais. Portanto, é seguro dizer que a paz é a melhor opção para todos, pois estimula o consumo, aumenta a demanda e, consequentemente, as cotações internacionais de uma maneira geral.

Curiosamente, as principais afetadas pelos efeitos negativos da guerra comercial são as gigantes da tecnologia dos EUA. No início de janeiro, as ações da Apple caíram em 10% após o comunicado de Tim Cook (CEO) indicando que a receita trimestral da empresa teve um resultado de 5 bilhões de dólares abaixo do previsto – Cook culpou a China e a guerra comercial pela queda. Google, DELL, IBM e Intel também já manifestaram seu descontentamento com a situação. As empresas de tecnologia, que produzem ou importam da China pelo baixo custo de produção oferecido, se prejudicam consideravelmente com a guerra comercial, que encarece os componentes eletrônicos oriundos do país. Além da indústria tech, foram afetados negativamente os setores de aviação, automobilístico, alimentício, de moda, dentre vários outros.

Performa.AI
Smarthint
olist

Apesar dos efeitos ocasionados pelas sanções de ordem tributária, o conflito entre os dois países possui outras variáveis com o potencial de alterar radicalmente a dinâmica do comércio internacional. A estratégia chinesa para tomar a dianteira no Grande Tabuleiro de Xadrez (termo usado por Zbigniew Brzezinski para descrever o cenário geopolítico) é revolucionária e afetará a economia global como um todo. “O sonho chinês” prevê a combinação de dois projetos essenciais para que o gigante asiático supere os EUA e conquiste o posto de superpotência econômica. Primeiramente, com o projeto “made in China 2025”, Pequim pretende suprir uma de suas principais desvantagens frente à Washington: a falta de tecnologia proprietária. Apesar de ser um país altamente industrializado, a maior parte da tecnologia produzida na China deriva de propriedade intelectual de empresas estrangeiras. A China, no final das contas, é uma espécie de “fábrica do mundo” que depende de investimento estrangeiro para prosperar.  Através do “made in China 2025”, Pequim passa a investir pesado para conquistar uma posição hegemônica na geração de tecnologia. Os campos-alvo do projeto incluem: tecnologia e informação, robótica, aeroespaço, ferrovias para vagões de alta velocidade, veículos movidos a novas energias, dentre outros.

A segunda parte da estratégia chinesa acarretará a mudança sem precedentes na histórica da logística comercial no mundo. A Nova Rota da Seda – também chamada de Belt and Road Initiative (BRI) – visa restaurar as rotas comerciais que uniam leste e oeste na idade média, a partir da construção de uma infraestrutura portuária e de transporte ímpar, especialmente na Eurásia e África. O projeto, que engloba o território de 60% da população e 1/3 da economia global, tem projeção de investimento no montante de 26 trilhões de dólares até 2030 segundo o Banco de Desenvolvimento Asiático. Vale salientar, a Rússia – rival histórico dos EUA no cenário geopolítico – é parceiro-chave da China nessa empreitada, de forma que a União Econômica Euroasiática também está fortemente envolvida no BRI. O projeto de integração logística maximizará o acesso chinês ao mercado euroasiático, alterando drasticamente os custos de exportação e fomentando a economia da região. A conclusão da Nova Rota da Seda reforçará a posição de pivot da China no comércio internacional e diminuirá sua dependência econômica ocidental, o que pode ser decisivo para o resultado final da grande guerra comercial.

Em meio a tantas variáveis, é difícil prever qual será o desfecho do embate entre EUA e China. No entanto, a análise econômica da situação não pode se restringir simplesmente aos interesses bilaterais dos países. Os interesses empresariais, tão impactantes quanto os estatais à economia, não seguem bandeira, mas são cosmopolitas e multilaterais. O futuro de diversas multinacionais com cadeias produtivas intrinsecamente vinculadas aos dois países depende da gestão correta da situação. Isso porque as ramificações do conflito transformarão os custos de importação e exportação na maior parte do globo, e, por consequência, a direção do fluxo internacional de mercadorias. No momento de escolha do mercado alvo, uma simulação de importação ou exportação para determinar o custo da operação é essencial. A simulação é feita a partir de três variáveis de custo – cambial, tributário e logístico. Todas essas variáveis são afetadas pelo cenário descrito acima, ou seja, o momento atual impõe às empresas envolvidas uma necessidade de reestruturação operacional. Por sorte, há solução para problemática comercial, ao menos em parte.

Apesar da possibilidade de se mitigar o risco de variação cambial a partir de operações de hedge, a barreira cambial em si é um fator inevitável nas transações internacionais envolvendo partes que usam moedas distintas. Todavia, existem algumas estratégias operacionais efetivas para combater os custos tributários e logísticos, como a utilização de portos hubs. As exportadoras têm a opção de enviar suas mercadorias a portos estratégicos (hubs), que serviriam como uma espécie de “ponte” operacional para reexportação ao destino final. Com a modelagem jurídica adequada, mercadorias desembarcadas nos hubs para um processo final de manufatura, alteração e/ou montagem, tem o potencial de contornar as sanções tributárias impostas pelo país de destino. Além disso, certos hubs são estratégicos para exploração de determinados mercados da perspectiva logística, como Singapura para Sudeste Asiático e Ilhas Canárias para África Ocidental. Esses hubs têm localização privilegiada,recebem grandes volumes de carga e os repassam para outros destinos, reduzindo significativamente os custos logísticos das transações. Assim, o empresário bem assessorado, pode contornar as barreiras tributárias impostas por entraves comerciais e, ainda, impulsionar seus negócios ao utilizar novas estruturas logísticas, contanto que escolha o hub adequado.

A potencial variação do cenário geopolítico é um grande risco para empresas que atuam na esfera internacional. Mudanças na política comercial dos países são por vezes imprevisíveis e podem acontecer rapidamente, afetando indústrias inteiras de forma substancial. No entanto, poucos fatores estimulam tanto a evolução quanto a necessidade de adaptação. Em momentos como o atual, uma reestruturação operacional adequada pode reduzir drasticamente os custos das transações e, ainda, levar à exploração de novos mercados; para isso, uma assessoria jurídica especializada é essencial.

Rafael Marconcini é especialista em Negócios Internacionais e advogado da Área Corporativa do Marins Bertoldi Advogados.
  • Todos Fornecedores
  • Armazenamento
  • Consultoria
  • Entrega
  • Marketplace
  • Performance
  • Plataformas
    • Gestão de Anúncios
    • Atendimento ao Cliente
    • E-Mail Marketing
    • Sistema de ERP
    • Pagamento Online
    • Mídias Sociais
    • Plataforma de E-Commerce
    • Precificação Dinâmica
    • Vitrine Personalizada
  • Serviços
    • Escola Especializada
    • Logística
    • Agência Especializada
    • Redirecionamento de Encomendas
  • Soluções
 
Moovin
EZ Commerce
Rakuten
Bling
Accesstage
Mailbiz
LojaMestre
E-Goi
Neoassist
DLojavirtual
Dotstore
Ciashop
Seri.e Design
GhFly
E-Millennium
Bis2Bis
Bluefoot
F1soluções
Xtech Commerce
ComSchool
Brasil na Web
Nação Digital
Trezo
E-Commerce Logística
World Pay
Socialrocket
E-completo
Precode
IHouse Web
Smarthint
JET e-business
Ciclo
 

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.